28 fev 2015, 12h46

E AÍ? VAI COMPARTILHAR?

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(foto: reprodução)

 

O rapaz estava sentado no metrô, próximo à porta. Eis que entra no vagão um senhor, e imediatamente o moço faz sinal para ele:

- O senhor quer sentar? – já fazendo menção de levantar.

- Ah, não, obrigado, meu filho. Não precisa.

O cara se mexeu incomodado no assento.

- Tem certeza? Pode sentar!

- Não, tudo bem mesmo.

Silêncio. O rapaz, inquieto, não se aguentou e virou-se pro senhorzinho de novo:

- Olha, acho melhor o senhor sentar.

O idoso começou a perder a paciência.

- Meu filho, não estou com vontade de sentar. Eu adoro andar e ficar de pé. Já passo uma parte enorme do dia sentado, está bem? E eu não vou demorar a descer. Pode ficar sentado sossegado e obrigado.

Silêncio por mais dois minutos.

- Então o senhor pode chegar mais para lá, por favor? – pediu o jovem, angustiado.

- Hein? Como assim?

- Chegar só um pouco para lá! Ficar longe de mim? – insistiu.

- Meu filho… você está bem? Eu não vou chegar pra lá nada, já vou descer daqui a pouco. Que conversa é essa? Tô te incomodando aqui?

- O senhor não está me incomodando. Mas sabe o que é, se alguém vir o senhor em pé do meu lado e eu sentado… bom, vai dar merda.

- Como é? – perguntou o velho, estupefato.

- Vai dar merda! Vai dar merda! – gritou o rapaz, nervoso. – Olha aí, todo mundo com celular na mão! Vai que alguém fotografa isso. Já tô até vendo! Vão dizer que eu não dei o lugar, que não tenho educação!

- “Quem” vão dizer? – o coroa ficou genuinamente curioso.

- Todo mundo, ué. Na internet!

- E você se importa com o que falam na internet? – agora ele achava graça.

- Claro! Só gente ingênua não se importa… até dar merda!

- Olha, acho que você está exagerando um pouco…

- Não estou não! – rebateu o menino nervoso e tentando se afastar do mais velho. – Já tô até vendo: a foto da gente e embaixo a legenda dizendo que as pessoas não têm educação, que não respeitam os mais velhos…

- Mas é só você dizer que não foi isso. – Retrucou o senhor, pensativo. – Você diz que eu não quis sentar e pronto. Acho que você está maluco…

- Maluco… maluco nada! Ninguém lê nada na internet, só a vê a foto e a chamada. Ninguém lê o texto. Ninguém pergunta, ninguém quer saber, ninguém averígua. Ninguém acha que pode estar errado. Eles olham, julgam e compartilham. Compartilham sem parar, sem saber!! – Ele estava cada vez mais nervoso.

- Calma!

- Já aconteceu comigo. Faz uns meses, eu tinha tido um dia infeliz, minha cachorrinha tinha ficado trancada em casa o dia todo, e quando eu saí pra levar ela pra passear… estava tão distraído que não catei o cocô dela na rua!! – contou desesperado.

O senhor deu uma risada gostosa.

- Meu filho… mas o que é que tem? Ninguém vai morrer porque esqueceu de catar o cocô do cachorro uma vez…!

- Ah, é? Mas acontece que me fotografaram. E me colocaram no Facebook falando do absurdo que eram as pessoas que não catam os lixos dos cachorros, e que isso estragava a cidade, era a culpa das enchentes e sei lá mais o quê! Logo eu! Logo eu que levo até o saquinho no bolso pra catar o cocô. Só porque estava triste e distraído, fiquei viral!

- Viral? – dessa vez o velho deu mesmo um passinho mais para longe.

- É, viral. Na internet. Em 2 dias tinha gente até em Singapura me xingando! Minha foto se espalhou que nem pólvora! As pessoas ADORAM uma denúncia. Adoram uma causa!

- Mas isso… mas isso… é maluquice!

- Exatamente! Mas é assim que as coisas são agora. E se você tenta explicar, só piora! Fui explicar que a minha avó tinha morrido naquele dia, e que por isso a cachorrinha tinha ficado trancada no apartamento o dia todo e eu estava distraído… e comecei a ser perseguido pelas entidades de defensores de animais!! Os defensores dos animais compartilharam minha foto tudo de novo, dizendo que eu maltratava a cadela! Tinha que ver os comentários das pessoas que nem me conheciam, me chamando de monstro! Logo eu, que até durmo com a cachorra na cama!

O coroa ficou pensativo.

- No final das contas – continuou o jovem – enviaram 30 quilos de cocô pra porta da minha casa. Em retaliação, pelo cocô que eu deixei na rua. Justiça, sabe? Hoje em dia a justiça é assim. Olha, moço, sei que deixar cocô na rua é errado, sei que errei, mas eu estava cheio de problema naquele dia. Não merecia tanta bosta no meu muro e nem ser tão xingado, e ter que ouvir os “bem feito!” que ouvi. Fiquei um tempão com medo de sair de casa e apanhar.

- Mas só uma pessoa muito sem noção, MUITO DESEQUILIBRADA compartilharia uma notícia sem saber bem sobre ela, sem ouvir os dois lados, sem esperar investigação, só pela foto!

- Minha mãe compartilhou – sussurrou o moleque cabisbaixo.

- Sua mãe?????

- É, ela não percebeu que era eu. Ela adora bicho, sabe. E é da Associação do Bairro Limpo… aí já viu. Ela não leu o texto, só leu a chamada dizendo que eu era um imundo, playboyzinho mimado, e que ainda por cima maltratava o cãozinho e não quis nem saber, compartilhou logo. Quando eu vi, dei uma bronca nela.

Os dois ficaram quietos por uns minutos, sob o peso da história.

- O senhor pode chegar pra lá agora, por favor?

- Olha, moço… me desculpa. Me desculpa mesmo. Mas não concordo com isso aí não, não concordo com esse tal povo do Facebook, acho isso tudo uma insanidade e não vou ser conivente com toda essa baboseira.

O rapaz ficou torcendo as mãos uns minutos, nervoso e pensando, até que enfim tirou um caderno da mochila, rabiscou algumas coisas nele e ficou segurando bem na sua frente, decidido.

“ELE NÃO QUER SENTAR PORQUE ESTÁ COM HEMORROIDA”, dizia a folha.

O senhor finalmente foi para o outro lado do vagão.

 

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27 jan 2015, 10h08

USE MAIS SEU CELULAR


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Acho curiosíssimo as pessoas se orgulharem em ser obsoletas. Sempre que alguém começa com aquele papinho criticando selfies, o uso de celulares, Facebook ou a invenção do momento, me lembro daqueles velhinhos que reclamavam que as pessoas estavam ficando antissociais por causa do jornal, e que o advento da televisão ia acabar com a humanidade, pois todos só ficariam na frente dela o dia todo.
Se alguém contasse para mim aos 20 anos que um dia eu poderia tirar quantas fotos quisesse, e que poderia compartilhar com todos automaticamente (ao invés de demorar semanas para revelar foto e acabar perdendo um monte), eu ficaria maravilhada. Mas meu eu jovem ficaria horrorizado de saber que existiriam pessoas que criticariam essa praticidade. Seriam eles loucos ou saudosistas? Ou somente pessoas com resistência ao novo?

Seu celular é a maior maravilha do século. Com ele você pode filmar um flagrante, falar com alguém do outro lado do mundo, encontrar amigos perdidos há mais de 20 anos, agendar consultas, ter uma bússola, um mapa, uma lanterna, uma calculadora, um jornal, uma revista, livros para ler. Há aplicativos para controlar sua medicação, para diagnósticos diferenciais (para médicos), com enciclopédias, de gente oferecendo carona pro trabalho, para aprender uma língua. Com ele você escuta uma música que acabou de ser lançada em outro país, participa de grupos de pessoas com interesses em comum, lê receitas de bolo, encontra cães perdidos.

Exagero no uso? Oras, o ser humano sempre exagera com alguma novidade – a humanidade não vai ser pior ou melhor por isso. E essa história de “as pessoas estão esquecendo a vida real e de viver os momentos” é balela – as pessoas são o que são, com tecnologia ou não. Quem é limitado vai ter todo esse potencial na mão e… vai usar só pra jogar joguinho ou curtir foto engraçada. Quem já é idiota vai ser um idiota com celular. Ponto. O negócio é adaptar-se e tirar sempre o melhor proveito das possibilidades. E se esses forem os novos tempos, vamos aceitar que dói menos.

Use mais o seu celular. Use bastante, tire tudo que ele puder te oferecer. Aprenda bastante, facilite sua vida. Não encha a boca para dizer que “não uso e nem faço questão de usar e aprender” – porque não saber de alguma coisa não é status, não é vantagem nenhuma. É passar atestado de limitação.

E se não quiser usar também, tudo bem, está no seu direito – mas é de bom tom parar de bancar o superior e encher o saco de quem faz bom uso. Ou pode tentar voltar para os “maravilhosos” 1890, quando tudo era mais “simples”, e a humanidade era tão “amiga” e “sociável” (mas lembre-se: não havia penicilina)
Afinal, com tantas coisas que seu celular pode te oferecer, reclamar dele no Facebook é só mais uma opção.

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26 jan 2015, 18h06

AS 10 COISAS MAIS ESTÚPIDAS A SE FAZER NO VERÃO

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No verão perfeito a sua bunda não tem celulite, você finalmente encontra o biquíni ideal para seu tipo de corpo, os dias são ensolarados (sem estarem o inferno na Terra), só caras gatos correm na areia, os picolés não derretem rápido demais melando sua mão, você consegue ler na beira da piscina (sem algum moleque pentelho espirrando água em você)…

Nunca, né? Quem é que consegue um verão totalmente perfeito? Não me entenda mal – eu AMO o verão, adoro o calor, curto todas as pequenas coisas e o colorido dessa estação. Mas várias situações fazem o verão ficar com menos cara de capa da Vogue especial Summer.

Sou a rainha das lambanças e “merendadas” veranistas, então aí vai a lista das coisas mais retardadas para se fazer nesse período (fique à vontade para adicionar as suas):

1 – ASSISTIR “SEMANA DO TUBARÃO” OU “QUANDO OS TUBARÕES ATACAM”, NO DISCOVERY, NA NOITE ANTERIOR À PRAIA.

Todo ano eu me prometo não assistir mais shows de tubarões. Todo ano. E todo ano acabo não só assistindo, como dando preferência àqueles bem gráficos e sanguinolentos, com vítimas e cenas de ataques… Tem coisa mais idiota para se fazer na véspera de um final de semana de sol? É eu botar o pezinho na linha d’água para começar a ter um revival dos programas na cabeça e dar vexame, avaliando temperatura da água, sombras estranhas, gritando cada vez que um peixe encosta na perna… e se tem alguém mais ao fundo do que eu – isso é o mais importante (porque se alguém for ser atacado, não serei eu! (risos)).

2 – TOMAR CHÁ

Eu sou uma grande bebedora de chá. De café também, mas principalmente de chá preto – para mim ele deveria compor a pirâmide básica dos grupos alimentares. E no verão eu insisto em continuar com o hábito. Digo a mim mesma que vou tentar receitas de chá gelado e frapuccinos caseiros… e acabo suando, segurando uma xícara pelando no meio da tarde. E atraindo olhares de piedade daqueles que acham que eu simplesmente pirei.

3- PULAR A PEDICURE

É batata – você está com pressa, e resolve fazer só a mão. A verdade é que tudo bem se você estiver com a unha da mão sem esmalte, só cortadinha e lixada, com uma base – é verão. Você vai mexer mesmo em água, então tudo bem se a sua mão estiver só ok. Agora, o pé não. Ele precisa estar impecável. Tem coisa mais fim de festa do que ter que usar um chinelo ou rasteirinha e o esmalte estar descascado, o calcanhar estar duro e ter cutículas saindo pelo ladrão? Todo mundo vai olhar pro seu pé! E pode ter certeza de que no dia seguinte que você pular a pedicure, vai receber um convite para alguma coisa em que mostrar os pés vai ser obrigatório e você vai se arrepender.

4- TREPAR FORA DO AR CONDICIONADO

Sim, parece uma boa ideia. Sim, você está empolgado e não quer esperar chegar no quarto, ou parar pra ligar o ar. Vai por mim – você vai acabar suando em todas as dobrinhas (e não de um jeito sexy), com cabelo grudado na cara e torcendo pro troço acabar logo.

5 – PROJETO “QUALQUER COISA”

Tem palavra mais esculhambada nos últimos tempos do que “projeto”? TODO MUNDO que resolve fazer alguma coisa, acha que tem um “projeto”, principalmente se for emagrecer ou malhar (palavra que imbecilmente também virou “treinar”, mas isso é assunto pra outro texto). O saco é que te dá um estalo de que você precisa dar uma “guaribada” urgente no corpo… só que é tarde demais. Se não rolou até agora, nos últimos meses, tentar algum “projeto” bem agora, quando já está sol a pino e você já precisa ficar bem nua, vai ser em vão. Melhor se programar melhor da próxima vez, ao invés de ficar passando fome ou se matando de se exercitar quando deveria estar de boa aproveitando uma cervejinha (ou o que você gostar de beber) à beira mar. Melhor curtir o verão meio fora de forma, do que não curtir de forma alguma.

6 – TOMAR CAIPIRINHA AO SOL

Parece óbvio, mas só quem teve mancha de queimadura em cima do lábio por causa do limão sabe como é retardado isso.

7 – LEVAR SEU CACHORRO (QUE NUNCA FOI) PARA PASSEAR NA PRAIA

Expectativa – ele andando ao seu lado, lindo e feliz. Realidade – você correndo feito louco atrás dele antes que ele fuja, ele se enchendo de areia até nos ouvidos (o que vai te dar um trabalhão para limpar depois), ele tentando dar bote nos pombos, latindo pro sorveteiro ou cagando do lado dos banhistas, causando um inferno.

8 – COMER CHOCOLATE NA RUA

Ou levar chocolate na bolsa – é chocolate derretido para todo lado!

9 – ANDAR O DIA INTEIRO DE SAIA

Olha, eu tenho coxas gordas. Não grossas – gordas. Mas acho que é problema até pra quem é magrinha - andar o dia inteiro de saia no sol e na rua é certeza de assadura no final do dia. Mais indigno do que admitir que está assada, só ter que sair com aquele cheirinho de Hipoglós depois! (risos)

10 – LEVAR O SMARTPHONE PRA PISCINA.

Vai molhar. Não, sério – vai molhar. Não importa o cuidado que você tenha – quando você menos esperar, vai estar naquela posição patética de enxugar freneticamente ele com a toalha. Então, ou abra mão ou já vá conformado.

Eu poderia continuar a lista eternamente (citando “usar perfume forte em ambiente fechado cheio de gente”, e coisas assim), mas achei que o resto não era estúpido de verão – era só estúpido mesmo.

 

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20 jan 2015, 10h52

FERIADO

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Dia de folga.

A primeira folga tinha sido do despertador – mesmo assim acordou no horário programado, como um ratinho adestrado de laboratório. Mas acordou sem ele.

Tudo piscava – o computador e o celular. Mensagens, chamadas, convites, ligações, cutucões. Tanta coisa pra fazer, pra “aproveitar” o dia! Festa, cinema, praia, churrasco, encontro, almocinho, passeio… Até o sol, forçando entrada pela cortina, parecia piscar, convidando a sair.

Espreguiçou-se, ligou a cafeteira, pegou um livro, trancou a porta e desligou tudo.

O mundo chamava lá fora, mas hoje ela preferia ser feliz aqui dentro.

 

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13 jan 2015, 15h41

MISSÃO: INVADIR A CASA DA VIZINHA

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E se você abrir a porta de casa e… NÃO FOR A SUA CASA?

Apertei meu andar no elevador e fiquei batendo papo com a “criança”, distraída. A porta do elevador abriu, eu desci e, sem hesitar muito, enfiei a mão na maçaneta da “minha” porta. A criança ainda teve tempo de comentar em um micro-segundo: “olha, a vizinha mudou o tapete”. A vizinha não tinha mudado o tapete, simplesmente porque aquela não era a minha vizinha do lado.

E pra minha infelicidade, a porta estava destrancada.

Uma mulher estranha gritando um “ai, que susto!”, um cachorro branco e peludo latindo… e foi bem nessa hora que eu percebi que não estava no meu apartamento! Bati a porta gaguejando desculpas, com a cara vermelha, e saí correndo! O elevador tinha parado dois andares abaixo e eu nem percebi.

Cheguei em casa passada e fui contar pra ele, que se esborrachou de rir.

- Pior você não sabe – disse eu constrangida. - Foi bem naquela vizinha que já odeia a gente, porque nosso ar-condicionado pinga no dela!

Ele nem vacilou e comentou gaiato:

- Então você deveria ter saído dessa gritando: “vim só pra avisar que já consertei o ar!”

Acho que vou passar os próximos dias andando de escada…

 

 

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12 jan 2015, 19h37

CLUBE DE LEITURA – LIVRO DO MÊS

Alô, peeps! ‘Vambora inaugurar o clube esse ano? Estavam com saudades das nossas leiturinhas? 2015 promete ser um ano de prateleira cheia, com muitos lançamentos bacanas; vamos começar cedo.

Vem com a gente então ler um livro levinho, divertido e com cara de férias:

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O LIVRO DOS MIL DIAS, SHANNON HALE. Lady Saren ficará sete anos trancada em uma torre. O castigo, imposto por seu pai, é uma resposta à sua recusa de casar-se com o noivo escolhido pela família. Mas seu isolamento não será total, uma vez que Dashti, sua fiel criada, voluntariamente se fará prisioneira para servi-la e fazer-lhe companhia. O silêncio voluntário e as lágrimas constantes de Lady Saren tornam-se parte da dinâmica monótona dos dias. As únicas companhias verdadeiras da miserável criada são o gatinho Meu Senhor e as páginas de um diário. Com a chegada de dois pretendentes da nobre, um deles muito bem-vindo enquanto o outro nem tanto, as garotas serão confrontadas com a esperança e o medo.

Vencedor de mais de vinte prêmios literários, O livro dos mil dias é uma incrível história completamente recontada, cheia de aventura e romance, dramas e disfarces.

SIM!! Um CONTO DE FADAS!!! Eu adoro contos de fadas!! Fala a verdade – há quanto tempo você não lê um legal? Não deixa a imaginação ir embora? Estou me coçando toda pra ler. As críticas estão boas; o texto não parece infantiloide. E além disso, bem, eu nem tinha visto a capa do livro quando decidi por ele, mas depois de ver… não é MUITO fofa? Tipo, irresistível? Eu também escolho livro pela capa – mals aê!

Bom, ainda não temos data de encontro virtual e físico, mas está dada a largada – comece a ler para podermos estar todos juntos. Combinado?

Valendo!

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9 jan 2015, 19h36

O TIOZINHO DO MERCADO

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Encontrei-a na porta do mercado – eu entrava, ela saía com pressa.  Dez minutos de papo em dia, e eu pergunto se ela vai a algum lugar já que estava saindo correndo.

- Não, estou fugindo do tiozinho do mercado.

Eu comecei a rir sem nem saber ainda do que ela estava falando.

- Aquele cara que fica com o microfone anunciando as promoções, sabe? Aquele tiozinho é o inferno! Eu não consigo mais fazer compra em paz. Entro com uma lista de coisas pra comprar e saio com mais outro tanto. Entro pra comprar salada e saio com sorvete! Assim não tem dieta que aguente. Esse cara é um safado, fica seduzindo a gente “chocottone agora na promoção, freguesa. Vem experimentar, é de graça”. E quando eu vejo, já peguei o chocottone. Daqui a pouco, ele anuncia outra coisa e lá vou eu pegar de novo. Você pensa “hum, promoção, o preço tá bom” e ele ainda te tenta oferecendo cafezinho “vem pegar um cafezinho de graça, freguesa”. E quando você vê, está há horas dentro do mercado, tomando cafezinho, numa maratona, correndo de um lado pro outro pra pegar as promoções, cansada e cheia de coisa a mais no carrinho! Maldito tiozinho!

Eu morria de rir.

- Ok – disse eu. – Vai correndo, foge do tiozinho, vai. 

- Pior você não sabe – suspirou resignada. – NÃO TEM COMO FUGIR! Até quando eu não tou no mercado, meu pai ME LIGA do celular pra dizer as promoções que o tiozinho está anunciando!

Entrei rindo muito no mercado. Mal tinha pegado o carrinho, escuto no microfone:

- VOCÊ QUE ESTÁ CHEGANDO AGORA, AQUI NO CORREDOR CENTRAL…

Certeza que ele estava falando comigo.

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16 dez 2014, 15h15

SE VOCÊ ESTIVESSE EM PARIS

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Se você estivesse em Paris agora, tudo seria lindo. Tudo teria um gosto melhor, cada pequena coisa seria mágica. Será?

Dia desses estava voltando do trabalho de ônibus – uma coisa fora do meu habitual, o carro tinha ficado com ele – e percebi que estava irritada. Só essa pequena coisa, esse pequeno contratempo, essa pequena alteração, e já fiquei ligeiramente aborrecida. Não aborrecida do tipo “como a minha vida é horrível”, porque tenho alguma noção de realidade e detesto ser uma pessoa que se abala por tão pouco. Mas fiquei “suspirenta” e lamurienta de ter que sair da minha rotina. Achando que aquilo era um mau negócio, esse de ter que aturar transporte público.

Aí olhei em volta, pela janela, e estava um dia incrível. Azul. Fresco.

Caiu a ficha na hora - se eu estivesse em Paris, iria achar aquela pequena viagem de ônibus a coisa mais chic e irresistível do mundo. Curtiria cada momento, cada paisagem. Não é assim? Vamos para outros lugares, outros países, e andamos de metrô e ônibus amarradões. Achamos o máximo. Tudo que fazemos de má vontade na nossa rotina, como ir comprar um pão, por exemplo, fica altamente valorizado em Paris. Ou em qualquer lugar fantástico desses. Até o mendigo parece glamouroso! (afinal o cara fala francês ou inglês, hehe)

Como somos deslumbrados. Se Paris fosse o quintal de casa, seria assim tão interessante? (nesse momento você está balançando a cabeça e pensando “CLARO QUE SIM!”. Mas me dá um segundo pra te explicar porque acho que não)

Há anos uma amiga passou a pior temporada de sua vida em Paris (estou falando de Paris como usaria qualquer lugar como exemplo. Mas ela estava mesmo em Paris). Ela não falava nada da língua, morava sozinha e seu noivo tinha ficado no Brasil. E ainda por cima, pegou um inverno rigoroso. Foram os 6 meses mais longos da vida dela. O que para alguns seria uma aventura, uma tremenda oportunidade, para ela era tudo que ela não queria. Aí é que está o pulo do gato – o que muda somos nós, a nossa disposição, o nosso olhar. Não as vidas fantásticas que fantasiamos.

Paris, Londres, NY… alguém poderia suspirar da mesma forma, do outro lado do mundo “Ah, o Rio. Ah, São Paulo. Ah, o Nordeste. Ah, pindamonhangabeira do Norte…” Não é exagero meu – sempre tem alguém sonhando como a vida seria fabulosa em outro lugar, vivendo outra rotina. Com outras pessoas. Claro que, por si só, esses lugares têm seu apelo – são históricos, culturais… mas quando você não está bem, nada fica essa Coca-Cola toda. Quando você está entediado e aborrecido, comprar pão é comprar pão, ter que andar até o banco é ter que andar até o banco. Procurar excitação e bucolidade em qualquer insignificância é que é a verdadeira arte, o verdadeiro segredo. Caceta, ser feliz quando tudo conspira em volta, quando a paisagem é bonita, é mole!

A sua vida parece um saco (e ela provavelmente é), mas assim como a de todo mundo! Pelo menos em algum momento. Quem pinta ela desse ou daquele jeito somos nós. Quem transforma o ato de comer uma simples manga, por exemplo, em algo luxuriento somos nós. Quem faz com que qualquer filme de Tela Quente tenha ares de sessão de cinema de domingo, somos nós. A graça está nos olhos de quem vê, não de quem faz, certo?

Ainda sobre Paris – li certa vez que nada mais perigoso do que se apaixonar em Paris. O casal que se encanta em um lugar desses pode ter dificuldades em se acostumar com a realidade depois. Ter Paris como base de comparação é tenso. É injusto, até.

O negócio é treinar o olho para ver beleza no banal. Pra ver excitação onde há o rotineiro. E, em último caso, catar os óculos de Pollyana na gaveta, tirar o pó e colocar em uso.

E Paris que continue deslumbrante… assim como onde quer que estivermos.

 

 

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26 nov 2014, 22h16

A COCA-COLA DA COMADRE DÉA

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Só existe uma Coca-Cola que presta no mundo:  A COCA-COLA DA COMADRE DÉA.

O caso é que eu não curto Coca, como já é sabido. Nada relacionado à ideologia: simplesmente sou uma garota-Guaraná. É um daqueles clássicos embates que dividem a humanidade – Toddy X Nescau, Gato X Cachorro, Cospe X Engole… Coca X Guaraná. Eu sou da turma do Guaraná. Uma verdadeira traição à minha índole anglófila, eu sei, mas o que se há de fazer.

Podendo, evito a bebida, pois o seu gosto realmente me desagrada. Mas às vezes, por falta absoluta do que beber, acabo tomando. E foi aí que descobri a Coca da comadre Déa.

Um belo dia, estávamos em um restaurante e nada da minha bebida chegar – ela estava tomando um copo cheio da gasosa com gelo e bebia com vontade, com prazer mesmo. Eu, seca, acabei pegando e tomando uns goles. Nunca nada foi tão saboroso! Nada! Gelado, ácido, borbulhante… matou minha sede na hora. Fiquei chocada comigo mesma.

Achei que tinha mudado de opinião, de gosto, sei lá. Gente, tenho mudado tanto nos últimos tempos, mas tanto, que ando Alice, nem me reconheço mais. O que seria passar a gostar de Coca? Nada.

Não demorou muito, topei com outra falta de guaraná (alou, Antactica! Vamos rever essa distribuição! rs) e nem pestanejei – pedi uma Coca Zero. Estava saindo do shopping, o carro estava quente, eu estava exausta… momento mais do que adequado para a bebida refrescante. Rá. Dei uns três goles e joguei a lata fora. Fiquei tão inconformada, que tirei foto e enviei para a comadre dizendo “só a sua Coca presta”.

E não foi coincidência: de lá para cá, comprei Coca mais umas 2x. Todas as vezes, achei intragável. E todas as que tomei uns goles do copo dela, nada me pareceu mais perfeito. Eu não estou maluca. E a grama do vizinho não é mais verde, não é isso. Juro que o caso procede, só não sei explicar.

Talvez porque sem a comadre agregada à bebida, ela seja somente isso: uma bebida. E uma das quais não gosto muito. A do copo da amiga talvez venha com todo o prazer que ela sente em beber aquele troço. Talvez porque gostando dela, goste da bebida dela por associação. Ou talvez porque simplesmente ela seja mestra em orquestrar a combinação perfeita de gelo, Coca e temperatura adequada em seu copo. Não sei.

Só sei que fico feliz da comadre também não gostar muito de cachaça.

 

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23 nov 2014, 13h37

O QUE NÃO SE USA CAI EM DESUSO

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Começou depois da festa de quinze anos da minha “pequena” – ela tinha ganhado muitos presentes bacanas; anéis, pulseiras, perfumes… essas coisas legais que meninas ganham nessa data marcante. E começou a se preocupar em guardar tudo com cuidado, economizar “pra não gastar”, “pra não estragar”.

Lembrei de como eu era assim com coisas boas: guardava com esmero, não usava nunca. O saco é que depois de um tempo, acordei com 30 anos nunca tendo usado aquele colar que mamãe me deu, com poeira na louça chic que era “pra ser usada só quando a Rainha viesse nos visitar” (bem à moda da Mônica do Friends, lembram?), com furos de traça nas colchas lindas de crochê que minha bisa me mandou. E com um monte de perfumes e cosméticos fora da validade e que foram parar no lixo.

Não lembro bem quando foi que me deu o estalo – em algum dia marcante, com certeza, daqueles que fazem a gente repensar tudo (embora eu não lembre exatamente qual foi). O bicho da mudança me mordeu, e de lá para cá USO TUDO. Uso mesmo. Não fica um batom extravagante intacto na necessaire, um perfume chic mofando. Cremes caros? Agora eles acabam nos potes (coisa que não acontecia antes!). Tudo caía em desuso e o que era pra ser especial, acabava sem proveito.

Jóias? São poucas as que sobraram depois do assalto que sofri – mas por isso mesmo, uso todas. Ao mesmo tempo. Pra ir na feira. Todas juntas, num samba doido só. Vou usar quando, quando as ruguinhas chamarem mais atenção do que o brilho do metal por cima delas? Comigo não, violão! Nevermore! As que guardei por anos, os bandidos levaram e nunca usufruí.

Besteira essa nossa de esperar sempre a ocasião certa para nos gastarmos, para usarmos nosso melhor. Para encher a casa de flor, para fazer aquela receita gostosa, para abrir aquele vinho. Ficamos nos guardando para momentos que às vezes nunca chegam. Pare e pense em tudo que você economiza e guarda. E se você não está morrendo de vontade de ir correndo lá no armário agora mesmo e usar tudo, mesmo se for pra ficar em casa. Pra tornar esse dia chuvoso em algo incrível.

Falei para a criança colocar suas pulseiras, botar seus anéis e usar tudo aquilo que foi escolhido e presenteado com tanto amor e cuidado. Ela ficou radiante com a ideia.

- Mas pra usar todo dia, mãe? Tem certeza?

- Tenho. Tem dia melhor do que o de hoje?

 

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